terça-feira , 20 fevereiro 2018
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Viver para contar: Os bem vividos 95 anos de Seu Júlio Perin

               

Quando ouvimos falar em Cooperativa Mista São Luiz Ltda. devemos lembrar que, o único sócio fundador ainda está entre nós, ele é Júlio Perin. O mesmo que ajudou a erguer cada tijolo da igreja Nossa Senhora da Saúde, sede da Paróquia de Cinquentenário. Também foi a grande liderança que implantou o Hospital daquela localidade, hoje apenas uma lembrança na memória dos moradores mais velhos. Assim aconteceu com a Escola Andrea Parisi, cujo cidadão que empresta o nome àquele educandário, Júlio conheceu muito bem. Lembra que a primeira casa comercial da vila foi de propriedade de Andrea.

Seu Júlio nasceu em São José do Mauá, morou em Campo Alegre e mais tarde veio para onde mora até hoje. Fez de tudo um pouco, naquela época era julio perin 2preciso. Não haviam as especialidades, tão características dos dias atuais. Então ele foi açougueiro, agricultor, oleiro, dono de alambique, domador de cavalos, criador de gado. Lembra de que os primeiros moradores da localidade foram os Dal Aqua, Parise, Perin, seguidos de Marin, Bin, Zamin, Galina, Trentin e tantos outros. Seus pais teriam vindo da região de Santa Maria e seus avós da Itália. Lembra que as famílias eram numerosas, os pais precisavam de mão de obra para a lavoura. Então o casal teve nove filhos, muitos destes morando hoje ao redor do velho pai e da mãe, dona Maria Golfetto Perin, também idosa, mas em boas condições de saúde e muito lúcida.

Sua filha Ires, fomos testemunhas, lhes concede uma atenção e um carinho muito especial.  Chamou-o para que contasse alguma coisa da vida pregressa a este agente do jornal. Júlio se aproximou, nos saudou com uma simpatia característica das pessoas mais idosas e sentou ao nosso lado. Alguma dificuldade auditiva fica evidente mas a filha se comunicava com facilidade e se alguma falha de memória ocorria, consultava sua mãe. Ouvir suas histórias, suas memórias, suas experiências é usufruir daquelas fontes de sabedoria. Seu Júlio é um informante, uma testemunha. Uma das últimas testemunhas de uma época.

Os velhos têm muito a dizer. Em algumas civilizações os velhos são tratados com desrespeito, são vistos como decadentes, rabugentos, resmunguentos, improdutivos. Esquecem que a vida não é apenas uma dimensão cronológica, um calendário na parede que vai marcando o passar das horjulio perinas, dos dias, dos anos. Nossa vida é constituída por fases, cada uma delas mais bonita do que a outra. Cada uma delas com seus valores, experiências adquiridas e que devem ser repassadas a outras gerações. Porque em caso de não registrarmos as lembranças individuais, perdemos a memória coletiva. Os idosos são a fonte de suas experiências, de sabedoria. Os modernos meios de comunicação registram tudo nos dias de hoje. Mas e quanto ao tempo passado? E quando seu Júlio nos deixar como vamos saber como era o mundo de onde viemos? Não ouvir os mais velhos resulta no empobrecimento cultural da sociedade. A memória individual está inserida no contexto social, forma a memória coletiva, a história propriamente dita.

Observamos no entrevistado uma postura de auto recolhimento, mais ouvia do que falava, a cabeça, às vezes, estava muito baixa, olhar distante. É atitude normal para pessoas com essa idade, dificuldade auditiva, de raciocínio. Mas graças aos cuidados da família, o casal está bem de saúde. E com quase um século de vida! Ao seu redor, enquanto conversávamos para construir este texto, se faziam presentes na sala três gerações, o que me chamou a atenção. O casal de idosos, com quase cem anos, a Iris, sua filha, com a metade dessa idade, o neto e minha amiga Eduarda Warmbier, ambos com pouco mais de vinte. Todos, em atitudes de respeito impressionante. Eles sabiam que aquele senhor com aspecto frágil havia sido igual a eles, sabiam também que ele não era o “nono” ultrapassado, que ele era o detentor de saberes populares que eles não detinham, que ali estava o elo da memória passada e o presente. Aqueles jovens inteligentes sabiam que não existe a fonte da eterna juventude, isto é uma falácia. Existe a realidade.

Clóvis Medeiros

 

 

 

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