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domingo , 31 maio 2020
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A coluna de Clóvis Medeiros: Tempos de Peste

Estamos vivendo engessados, isolados, confinados, amedrontados, assustados mas, no meu caso, confiante. Tudo passa, diria meu finado pai, até as águas do rio Inhandijú. Essa peste, o Coronavirus, chegou, trazendo consigo desdobramentos econômicos e sociais de grandes proporções. Vamos sobreviver a pandemia mas iremos sobreviver ao que virá depois? Os arautos do apocalipse dizem que não, que é o fim dos tempos. São adeptos do alarmismo, do catastrofismo, contaminados pelo pessimismo. Existem pessoas que adoram dar notícias ruins. Alguns apresentadores de TV nos passam a sensação de que eles ficam felizes ao revelarem números de mortos, de infectados, como se estivessem a passar a mensagem:___Viram? Falamos isso antes! Vai morrer mais gente. Como se atingissem uma meta fatídica. Ou será impressão minha? Aliás, evite assistir TV durante sua prisão domiciliar, elas geram neurose.

E as más notícias chegam automaticamente. Boletos vencidos, parente idoso que faleceu, produto em falta no super mercado, sobrinho que foi dispensado do emprego, os netos sem aula, a incerteza do futuro. A convivência de mais pessoas, de forma intensa, no mesmo ambiente é um teste de resistência. A geração de conflitos é mais expontânea. Andei lendo que na China, os pedidos de divórcio aumentaram consideravelmente depois do surgimento do Coronavírus e da conseqüente quarentena.  Portanto, respeitar a individualidade do outro é fundamental.

O Fernando, dono da farmácia, me contou que presenciou um fato inusitado. Estava atendendo,quando ouviu umas risadas debochadas e um cidadão falando alto com um senhor idoso, Golfetto, de Campo Alegre. O jovem que queria chamar a atenção para si, da forma mais idiota possível, dizia:___O que está fazendo aí, velho? É para os velhos ficarem em casa, esperando a morte chegar! E seguiu nesse tom de crueldade, desfilando um rosário de desfaçatez, atestando a mais pura ignorância. Inoportuno. Infeliz. Estamos em um momento em que devemos respeito ao próximo, aos trabalhadores da saúde, aos administradores de forma geral, aos jovens, aos velhos. Todos somos suscetíveis, todos somos pacientes em potencial. É preciso saber como se portar com solidariedade, com sentido humanitário, respeitando o próximo de todas as formas. As pessoas estão preocupadas, confrontadas com a própria fragilidade diante do mistério do desconhecido. Assim mesmo se constata o pior da natureza humana.

Pretendo ficar aqui no meu campo, há trinta quilômetros da cidade. Só vou sair daqui quando me disserem que a vida voltou ao normal. E, se porventura, for abatido, vou em paz. Sei que estou na alça de mira da peste. Faço parte do supra sumo do grupo de risco, diabético, idoso. Mas e daí? Vivi o suficiente para ser feliz. Tive muito mais dias atrás de mim do que os terei pela frente. Tive meus amores, uma família excepcional, ganhei, perdi, sofri decepções, ri, comemorei vitórias, lamentei derrotas. Me convenci de que estou do lado certo. Pouca coisa faria diferente se por aqui ficasse mais duzentos anos, como Matuzalém.

Aproveito esse período para me aproximar de mim mesmo. Há tempos queria ficar mais próximo do meu eu. Há setenta anos converso comigo. Às vezes soa monótono, sempre temos as mesmas conversas. A água quente do mate, a pimenta forte demais, as manias obscessivas, a raiva, a calma, o bom ou mau humor. Assim mesmo suporto, relativamente, com galhardia, o Clóvis Medeiros. Ele me abriu os olhos para o fato de que a imortalidade não existe. A vida tem limitações, sim.

Clóvis Medeiros

 

 

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