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O cotidiano em tempos de pandemia visto com o olhar sensível da jornalista e escritora Rejane Fiepke Carpenedo

Esta semana uma crônica  publicada na página do Facebook  da jornalista Rejane Fiepke Carpenedo, que reside  em Novo Machdo,  recebeu muitos elogios e curtidas de internautas. No texto, escrito  a  partir de suas vivências pessoais, Rejane muda o  “olhar negativo”  que temos sobre quase todas  as coisas em tempos de coronavirus, e com rara sensibilidade traz para os leitores uma outra visão do cotidiano, e de como  a pandemia poderá mudar o olhar que temos da vida, mesmo  das coisa mais simples  e próximas de nós. A crônica de Rejane “instiga os leitores ao exercício de contemplar o cotidiano, atentando-se aos detalhes que constituem a realidade e que muitas vezes passam despercebidos”, como ela própria define.

 Abaixo confira a íntegra do texto e conheça quem é Rejane Fiepke Carpenedo. 

Um relato, apenas

*Por Rejane Fiepke Carpenedo

Nesse ano, atípico, tive a oportunidade de participar de eventos acadêmicos e cursos em diferentes estados e cidades do RS. Não haveria novidade nenhuma nisso, pois é rotina de pesquisador de pós-graduação participar periodicamente de eventos da sua área, mas o que mudou foi o tempo e modo de deslocamento.

O que antes me custaria horas de viagem, agora me custa alguns passos e um click para estabelecer a conexão via Internet. Muitas vezes antes de palestras importantes e antes de entrar para a aula remota, ainda dá tempo de ir à horta colher algumas verduras para o almoço, tratar as galinhas no quintal, estender as roupas no varal para aproveitar o sol, colocar as batatas no forno ou arrancar alguns inços no jardim. Basta colocar uma blusa apresentável, passar um pó e um rímel, e tudo está pronto para ir de Novo Machado (um lugar que poucos pares da academia já ouviram falar) ao outro lado do país em questão de segundos, e o melhor é que não faz a menor diferença se não deu tempo de desencardir os pés ou as mãos depois de mexer na terra vermelha.

A quarentena tornou as coisas mais fáceis? Diria que essa pergunta não pode ser respondida com “sim” ou “não” (refiro-me aqui estritamente a minha realidade), porque para tal teria que ter vivenciado algo semelhante anteriormente para que pudesse estabelecer parâmetros e julgamentos pertinentes. Diria que a quarentena tornou as coisas novas e diferentes. Os desafios permaneceram os mesmos – quando não aumentaram, pois a responsabilidade e o compromisso com a produção do conhecimento se mantiveram, e como aliada surgiu a prática cotidiana da autodisciplina – porque transformar a sua casa em seu local de trabalho por tempo indeterminado é realmente desafiador.

Quando digo que as coisas se tornaram novas e diferentes, isso inclui inclusive o som ambiente, quando antes já havia me acostumado a trabalhar com o som ininterrupto dos ruídos do trânsito de Santa Maria e todos os sons que a cidade emite em seu intenso funcionamento, agora trabalho ao som do silêncio que paira sobre a zona rural de um pequeno município. Silêncio rompido, esporadicamente, por latidos de cães, o mugido das vacas, o cacarejar das galinhas ou o cantar dos pássaros. Também por vezes o raciocínio teórico é interrompido pela imagem que surge na janela: um periquito e um quero-quero disputando sementes caídas no chão, ou as galinhas d’angola fazendo a sua ronda matinal pela vizinhança anunciando a sua presença para todos que possam ouvir.

Isso é um desabafo? Não! É apenas um relato. Acho até que andamos perdendo um pouco a nossa capacidade de observar a realidade que nos cerca e fazer relatos, puramente relatos, sem nossos pré-conceitos, sem nossas opiniões. Não estou dizendo que o exercício do pensamento crítico não seja importante, mas lembrando que o exercício puramente contemplativo também é essencial (inclusive, como pré-requisito para quem deseja emitir seus juízos sobre as coisas).

*Rejane Fiepke Carpenedo é jornalista, escritora e pesquisadora. Nasceu em 21 de janeiro de 1995 em Novo Machado, município onde reside com o marido, Maichel Carpenedo. Atualmente cursa Doutorado em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria e trabalha como pesquisadora bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. É membro do Grupo de Trabalho de instalação da Academia de Letras do Noroeste do Rio Grande do Sul (ALENRIO). No que tange à literatura, tem escrito contos, crônicas e poesias.

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